Intercâmbio: jovens alemães participam de atividades nas comunidades de São Paulo


A cena é animadora e curiosa: grafiteiros e demais participantes de olhos claros, cabelos loiros, peles avermelhadas do sol, estilo underground, animação, ao mesmo tempo, ar de curiosidade. Foram estas as lembranças que os alemães deixam ao passar pela 2° Edição Na Ação Hip Hop no Quilombaque, em Perus, neste domingo (09/12).


O intercâmbio entre Berlin e São Paulo é uma parceria da ONG Conceitos de Rua (Capão Redondo), Ganguway, Berlin Massive e Kaos Kult Agency; Também Don’t Stop B-Girls e o Projeto Germinação Hip Hop. A iniciativa ocorre há dez anos (não consecutivos, pois em alguns anos não conseguiram viabilizar verba. No total já se somam quatro idas para Alemanha e cinco da Alemanha para o Brasil) e consiste da seguinte forma: um ano brasileiros vão à Berlim, enquanto no próximo, alemãs desembarcam em São Paulo.


Os “gringos”, entre os dias 02 e 10 de dezembro, passaram por diversos locais, entre eles: Centro de São Paulo, Ação Educativa, Estúdio CCJ Cachoeirinha, Estação da Juventude Cidade Tiradentes, CEU Caminho do Mar Jabaquara e Quilombaque. “Em 2004 foi feito um intercâmbio maior, vindo pessoas de Nova York, Porto Rico e França”, afirma Rodrigo de Souza, conhecido como Dom, 29 anos, antropólogo formado pela PUC – Ciências Sociais e coordenador da ONG Conceitos de Rua. “São dezoito integrantes no total. Muitos não têm a menor ideia do que vão encontrar e ficam surpresos ao se deparar com muitas semelhanças de seus países e como o universo Hip Hop é inserido no cotidiano, principalmente na quantidade de graffiti existente. O Hip Hop [em Berlim] é um nicho enquanto produção cultural, ou seja, é como escolher ser dançarino, é uma atividade, um segmento”, assegura o coordenador.


Em sua maioria, são jovens ligados à cultura Hip Hop, entre 24 a 30 anos de idade, os quais alguns já conseguem se sustentar com esta cultura, como o caso de Inka (referência do graffiti turco) – o grafiteiro não desembarcou com o grupo, pois veio para permanecer cinco meses no país por motivos particulares, mas se juntou ao grupo. Ele participou do intercâmbio em 2002 - e Sinaia (referência do Hip Hop latino).


“A Gangway faz trabalhos com meninos que passam tempo nas ruas. Esses meninos não tem dinheiro, moram com suas famílias em apartamentos pequenos e não tem espaço para se reunirem, escolhendo as ruas para estes encontros, bebem a cultura das ruas. A instituição tem sede própria, mas trabalha em quatorze bairros diferentes, com três pessoas cada equipe, obrigatoriamente com uma mulher e um tradutor que fale a língua estrangeira [prevalecente do bairro assistido]”, explica Mirtha Perrone, há vinte anos coordenadora de um dos grupos da Gangway Berlin.


Estes jovens, a maioria filhos de estrangeiros (foco da ação) “bebem da cultura das ruas” e, apesar de existirem muitas instituições, não há uma identificação com as regras impostas. Desta forma, para sucesso dos trabalhos, a coordenadora, assim como outros grupos da Gangway, trabalha nas ruas, indo até estes jovens, aceitando suas regras e oferecendo a ajuda necessária de forma individual. Apenas uma vez por semana podem ir à sede e participar das atividades com duração de duas horas.


“Os problemas são parecidos: pobreza, problemas em casa, discriminação por ser estrangeiros, problemas na escola e com drogas. Por isto é uma relação de confiança. A polícia não pode pressionar ou interferir por saber que somos institucionalizados. Quem custeia é o Senado de Berlim, os quais pagam os trabalhadores e os materiais utilizados ficam na dependência dos donativos de empresas e pessoas que ajudam com dinheiro.”


A Gangway é praticamente a única que tem a linha de trabalho de assistir os jovens estrangeiros. Além do Brasil, participamos de intercâmbios no Uruguai, Turquia, Nova York e Colômbia. “No Brasil os intercâmbios tem mais continuidade porque nos outros países não tem estrutura, os projetos sociais não tem dinheiro”, diz. Descreve que no Uruguai há uma comunidade negra a qual os descendentes de africanos fazem parte; neste bairro os trabalhadores não tem dinheiro e uma mulher é quem coordena as ações durante o período da tarde, pois de manhã trabalha como doméstica para se sustentar. Em Uganda também tem outros grupos, mas com poucos recursos.


Mirtha, uruguaia, nascida e criada em Monte Videl, radica há 25 anos na Alemanha, mãe de duas filhas e de mais outras centenas de jovens comenta sobre a sua dedicação: “é um trabalho que deve ter paciência, porque os jovens não mudam na hora. É um processo. Toda pessoa necessita do seu tempo para mudar”.


SAIBA MAIS


Conceitos de Rua


Em atividade desde 2000, foi formada por artistas da cultura Hip Hop em novembro de 1989 no Jardim Vale das Virtudes, região do Capão Redondo, zona sul de São Paulo. É referência no meio cultural paulistano, promovendo diversas ações com foco na juventude de bairros periféricos da cidade de São Paulo e a realização de projetos por todo o país – além de participar de intercâmbios internacionais. Agrega uma rede de artistas, produtores, intelectuais e parceiros numa busca de promover o melhor das manifestações culturais juvenis, urbanas em especial a linguagem da cultura Hip Hop e do patrimônio cultural.


E-mail: conceitosderua@gmail.com


Gangway Berlin


A Gangway desenvolve seus trabalhos sociais nos bairros de Berlim desde os anos noventa, após a queda do muro de Berlin. A princípio participavam três grupos de três pessoas cada, em três bairros diferentes e o foco ainda não eram os estrangeiros. Após brigas violentas entre gangues, com integrantes estrangeiros, o governo não sabia o que fazer para controlar a situação. A partir daí, buscou-se novas formas de solucionar o problema vigente. Grupos de pessoas foram ouvidos, os quais apresentaram um conceito, até então inexistente. Sem saída, o Governo deu o apoio. Hoje a instituição tem como focos jovens estrangeiros que passam a maior parte do tempo nas ruas por ser o único lugar de encontro os quais se identificam. Trabalha com sete grupos de aproximadamente 25 pessoas cada um, vindo a desenvolvendo as ações em todos os bairros de Berlin.


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Blog: http://conceitosderua.blogspot.com.br/

Facebook: http://www.facebook.com/conceitosderua


PUBLICADO EM REVISTA REBOSTEIO | 2012




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Tamires Santana

Tamires Santana é um ser vivo, dotado de inteligência e conhecimento (até que se prove o contrário). É pai, mãe e espírito - nem um pouco santo. Estuda, trabalha, busca, anda — principalmente de trem e bicicleta. Chegou a conclusão de que quanto mais se busca, menos se sabe. Gosta de falar sobre arte, cultura, cultura popular, política, economia solidária, design, religião, índio, folclore brasileiro, samba, carnaval, literatura infantil, ciência, criança,
desenho animado, cinema, plantas, minhocas, compostagem e um montão de outras coisa. É adepta da
filosofia de vida "é pra frente que se anda".

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