Carnaval: da manifestação popular à banalidade


O que se compreende por carnaval, em inúmeras regiões do mundo é relativo.


Dos lados de cá, o mais popular é o do formato samba, alegorias, fantasias e, mais recentemente, futilidade e depravação. As palavras poderiam sair da boca de um crente, quando na realidade, ganham as passarelas da literatura por alguém que é simplesmente apaixonada por este universo. Pra começo de conversa, saindo do eixo Rio- São Paulo- Salvador, diga-se de passagem, esta manifestação popular também é encontrada no Frevo, Ilê Ayê, desfile de blocos, bailes de salão, afoxé, trio elétrico, etc. Compreendê-lo, está muito além de se contentar com os enlatados transmitidos pelas grandes emissoras.


Aparentemente diferentes, quando na realidade, todas as formas de manifestação tomam o mesmo objetivo: fazer a alegria do povo. Entretanto, não é tudo “oba, oba”, como as aparências sugerem. Há o lado esquecido, hoje obscuro, inalcançável ao conhecimento popular, disponíveis apenas àqueles que bebem desta cultura e sabem do seu real significado e limitando-se ao carnaval das escolas de samba, da forma mundialmente conhecida, dá-se pra ter uma ideia de como as coisas não andam nada bem.


Uma escola de samba, principalmente por meio dos sambas enredos, tinha como objetivo ser ponto de resistência dos negros, valorização da autoestima; local o qual se poderia retratar sua cultura, fatos históricos não narrados pela história oficial. Também enfocaria a colaboração do negro e o índio para a formação do Brasil, retomando as raízes perdidas, cantaroladas com composições poéticas e contagiantes.


¹Em pouco mais de 20 anos, os compositores das escolas de samba, negros em sua maioria, tinham abandonado o ufanismo estéril e a apologia das elites, mergulhando em sua própria história, compreendido o valor civilizacional da África e passado a produzir um discurso combativo e, por que não dizer, político.


Incomensuravelmente, a importância do samba de enredo no incremento da autoestima da população negra, na educação do país como um todo, no aprofundamento das discussões sobre a questão racial brasileira.


Após os desfiles oficiais, as escolas promoviam desfiles nos bairros durante os dias restantes reservados à festividade, agregando pra si a participação da comunidade. Nos desfiles de hoje, tudo é cronometrado, os participantes são literalmente empurrados para dentro da passarela do samba e obrigados a seguir uma coreografia, perdendo a espontaneidade dos tempos anteriores.


Sua industrialização domina o real sentido da raiz social e cultural e o que temos como eixo central: seios cada vez mais siliconados e bumbum empinado sem contar no extinto sambam no pé, exibido pela estrela global bem à frente da bateria (considerada o coração da escola).


E assim, o Carnaval das escolas de samba se perde em meio à banalidade e ostentação.


¹ Livro Samba de enredo história e arte, página 109; Autores: Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas; Ano 2010, editora Civilização Brasileira.


PUBLICADO EM A ORDEM DO CAOS | 2013

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Tamires Santana

Tamires Santana é um ser vivo, dotado de inteligência e conhecimento (até que se prove o contrário). É pai, mãe e espírito - nem um pouco santo. Estuda, trabalha, busca, anda — principalmente de trem e bicicleta. Chegou a conclusão de que quanto mais se busca, menos se sabe. Gosta de falar sobre arte, cultura, cultura popular, política, economia solidária, design, religião, índio, folclore brasileiro, samba, carnaval, literatura infantil, ciência, criança,
desenho animado, cinema, plantas, minhocas, compostagem e um montão de outras coisa. É adepta da
filosofia de vida "é pra frente que se anda".

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