Uma flor branca, Umbanda e o antifascismo


Era uma vez um jovem rapaz de 17 anos de idade, chamado Zélio Fernandino de Morais, acometido por paralisia e que, um belo dia, volta a andar normalmente, para assombro dos médicos de sua época (1908). Devido ao fato inusitado, descobriu, por intermédio de um amigo, que era médium e, por isto, foi convidado a frequentar um “centro de mesa” (doutrina espírita kardecista).


Estando no "centro de mesa", sentado junto a corrente mediúnica, Zélio teria recebido um espírito que informou que ali faltava uma flor. Com espanto, viram os presentes, o jovem se levantar, ir ao jardim, colher uma rosa branca e depositá-la sobre a mesa. Em seguida, muitos outros irmãos da corrente mediúnica começaram a receber caboclos e pretos-velhos. Tal ato foi repreendido pelo dirigente, com o argumento de que eram “espíritos atrasados” e ali não eram o seu lugar. O espírito incorporado em Zélio perguntou: ”Por que repelem a presença dos citados espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens? Seria por causa de suas origens sociais e da cor?”.

Um médium vidente perguntou: “Por que o irmão fala nestes termos, pretendendo que a direção aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram quando encarnados, são claramente atrasados? Por que fala deste modo, se estou vendo que me dirijo neste momento a um jesuíta e a sua veste branca reflete uma aura de luz? E qual o seu nome meu irmão?”

O espírito teria explicado: "O que você vê em mim são restos de uma existência anterior. Fui padre, meu nome era Gabriel Malagrida e, acusado de bruxaria, fui sacrificado na fogueira da Inquisição por haver previsto o terremoto que destruiu Lisboa em 1755. Mas, em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como um caboclo brasileiro.”

Em um dos relatos, reproduzido no livro "Umbanda Cristã e Brasileira" (Oliveira, 1985), o caboclo teria assim se revelado: “Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho (Zélio), para dar início a um culto em que estes pretos e índios poderão dar sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou [...] Se é preciso que eu tenha um nome, digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois para mim não existirão caminhos fechados”.

A Umbanda

O dia chegou. Uma multidão de curiosos (um detalhe importante neste trecho da narrativa, o vidente perguntou ao espírito se ele realmente acreditava que alguém iria assistir o seu culto e eis que...), parentes e kardecistas se reuniram na casa de Zélio. Como informado, o Caboclo das Sete Encruzilhadas anunciou e fundou uma nova religião: a Umbanda.

E se isto já não bastasse, caboclo iluminado, foi lá e disse: “Assim como Maria acolhe em seus braços o filho, a tenda acolherá aos que a ela recorrerem as horas de aflição; todas as entidades serão ouvidas, e nós aprenderemos com aqueles espíritos que souberem mais e ensinaremos aqueles que souberem menos e a nenhum viraremos as costas e nem diremos não, pois esta é a vontade do Pai”.

Fascismo

Dentro de um caldeirão cultural chamado Brasil, contemplando também uma religião que é a cara desta nação, no que diz respeito a sua riqueza cultural e miscigenação, surpreendentemente, crescem discursos de ódio e favoráveis a um modelo de sociedade fascista.

O fascismo foi um movimento político e filosófico ou regime (como o estabelecido por Benito Mussolini na Itália, em 1922), que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador, com fortes tendências ao racismo, homofobia, super exploração, intolerância religiosa, machismo e perseguição a liberdade de expressão.

Nos anos 20, o antifascismo surgiu como movimento político enquanto resistência ao fascismo italiano, polarizando-se por toda a Europa. Apesar de diferenças relacionadas às táticas e particularidades dos fascismos enfrentados por esses grupos, todos eles tinham um único objetivo: combater o fascismo por qualquer meio necessário (o que inclui a violência). Antifascismo não é algo que você é, e sim algo que você faz.

Atualmente o antifascismo não tem líder, não é um grupo do qual você pode se tornar membro.

Antifa

Ao entrar nas redes sociais, é possível se deparar com uma enxurrada de posts, de anônimos e de famosos, se posicionando contra o fascismo, seguindo o modelo do símbolo ativista norte-americano "Antifa", com a releitura da bandeira da Ação Antifascista (Antifaschistische Aktion) - surgido em 1932 enquanto braço do Partido Comunista Alemão. Originalmente a bandeira era inteiramente vermelha e com a adesão de militantes anarquistas ao grupo, foi alterada para duas bandeiras, uma preta e outra vermelha balançando juntas e voltadas para a esquerda. As cores de sua bandeira não são aleatórias, já que remetem às posições políticas daqueles que durante a Segunda Guerra Mundial fundaram a Ação Antifascista.

Com discurso anticapitalista, geralmente vestidos de preto, os antifas utilizam táticas semelhantes às empregadas por anarquistas, sem cobiçar um projeto político ou participação no Congresso. Ressurgiu nos EUA, na presidência de Trump, para fazer frente a grupos conservadores e à direita alternativa (alt-right), que ajudaram a elegê-lo, opondo-se, principalmente ao combate ao nazismo, neonazismo e as ideologias supremacistas, xenófobas e de extrema-direita atualmente alta.

A luta antifascista já teve sua história apagada diversas vezes devido o controle que grupos conservadores e fascistas tem sobre as informações que chegam às massas. Utilizar a bel prazer, mesmo que por desconhecimento, este símbolo é esvaziar, apagar e dificultar o trabalho de tantas pessoas que militam nestes grupos.

Flor branca, Umbanda e Antifascismo

No Brasil, muitas mobilizações vêm ocorrendo, debatendo sobre as estruturas sociais e o racismo existente. Para os seguidores de uma religião brasileira, como a Umbanda, que desde o seu nascimento se opõe a todo e qualquer tipo de discriminação social, étnica, racial, é de extrema importância e urgência que cada um tenha real conhecimento sobre o que está se movimentando em sua direção, sendo o conhecimento a principal ferramenta para que não se viva como uma folha seca: para onde o vento bate, leva.

Apesar de bem-intencionado (ou desconhecimento, quem sabe), Antifascismo é um movimento e uma luta séria. Não deve ser escrachado como um mero GIF que serve de moldura para foto de perfil e, muito menos, seu símbolo deve ganhar “cores e valores¹”, conforme gosto pessoal.

É importante não subestimar o perigo que ameaça a democracia e a liberdade conquistada com muitas lutas ao longo da história.

É preciso iluminar as sombras: da ignorância causada por uma educação sucateada a contradição em práticas que acolhem a ancestralidade negra e nativa quando conivente apenas à incorporação de preto-velho e caboclo na gira.

Na anunciação da Umbanda, versão que, com frequência, é transmitida por umbandistas, o ato de buscar a flor branca é uma quebra de paradigmas. Algo não estava completo ali. Hoje, as mesmas questões e tantas outras continuam precisando ser provocadas, mexidas, preenchidas. Precisa sim, mais do que nunca, contudo, “por qualquer meio necessário”?

Na narrativa da fundação da Umbanda, traz o valor “a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados” e nos faz refletir sobre a isenção (ou não) de cada um nos espaços que ocupam. Espíritos de Preto-velho e Caboclos te abençoam e vão para Aruanda²; já os Preto-velho e Caboclos encarnados, que são muitos no Brasil, como são tratados nas suas relações?

O que você apoia? Suas crenças estão alinhadas com as suas práticas? Você age conforme o seu discurso? O respeito ao próximo está além terreiro e feed³ de notícias?

A mudança começa dentro de você: ao pensar, refletir, ao questionar, ouvir, ao dialogar; agir, ao mudar, reconstruir valores. Pensamentos positivos e palavras de amor são necessários, mas surtem mais efeitos quando o posicionamento é coerente perante a vida que pulsa em você e nas relações que faz parte.

Seja a cura e não feche caminhos!

¹ Cores e Valores: título de uma música e quinto álbum de estúdio do grupo de rap Racionais MC's (2014)

² Aruanda: conceito presente nas religiões afro-brasileiras e no Espiritismo brasileiro sobre um local no mundo espiritual que, de modo geral, equivale a uma espécie de paraíso espiritual

³ Feed de notícias: espaço para postagens de textos, imagens e vídeos nas redes sociais Facebook e Instagram

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Tamires Santana é mãe pequena do 7 Tronos Sagrados

Texto originalmente publicado aqui


Ajudaram a compor este texto dados retirados das fontes: https://www.paimaneco.org.br/2017/07/20/historia-da-umbanda-caboclo-das-sete-encruzilhadas/astrocentro.com.br/blog/umbanda/historia-da-umbanda/

https://www.brasildefato.com.br/2020/06/01/o-que-significa-ser-antifascista-e-por-que-o-bolsonarismo-e-o-fascismo-do-seculo-21

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs3003200804.htm#:~:text=Alves%20Oliveira%2C%201985)%2C%20o,mensagem%20e%2C%20assim%2C%20cumprir%20a

https://medium.com/@matheusMmota/antifascismo-n%C3%A3o-%C3%A9-moldura-para-o-seu-perfil-d648c1b3caa8

Destaque
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Tamires Santana

Tamires Santana é um ser vivo, dotado de inteligência e conhecimento (até que se prove o contrário). É pai, mãe e espírito - nem um pouco santo. Estuda, trabalha, busca, anda — principalmente de trem e bicicleta. Chegou a conclusão de que quanto mais se busca, menos se sabe. Gosta de falar sobre arte, cultura, cultura popular, política, economia solidária, design, religião, índio, folclore brasileiro, samba, carnaval, literatura infantil, ciência, criança,
desenho animado, cinema, plantas, minhocas, compostagem e um montão de outras coisa. É adepta da
filosofia de vida "é pra frente que se anda".

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