Somos todos negros


E você, como se reconhece?


Somos todos negros! Para que a afirmação se faça valer, afinal o que é ser negro? Uma raça, uma etnia, um grupo social? Discussões a cerca do assunto não faltam e nem sempre a história oficial é fiel aos fatos.

Mesmo a humanidade ter como berço o continente africano, o sentimento de pertencimento e negritude está bem longe de ser um consenso universal. De maneira mais próxima, no Brasil no início de sua formação, no mínimo, complexa, formou-se uma identidade nacional composta por indígenas, africanos e europeus. Deste fenômeno herdamos a miscigenação, que resultou no surgimento de uma nação de beleza excêntrica e uma “baita” confusão e contradição de sua identidade raramente assumida. E não é difícil compreender o porque.

Vivemos apenas quatro décadas de liberdade democrática, quando trezentos anos foram destinados à escravidão, um pouco mais de cem anos de sua abolição e duas décadas de ditadura militar. Como reflexo, apesar de não admitido, o preconceito impera de forma individual e coletiva, expressando-se em pensamentos, estrutura da fala, piadas, emoções e comportamentos. Nabby Clifford, idealizador do movimento “Preto é a minha cor”, lista termos como lista negra, dia negro, magia negra, câmbio negro, mercado negro, peste negra, buraco negro, passado negro, etc. e conclui que negro, em nosso imaginário, é sinônimo de ruim.


Seguindo a ótica do ganês Nabby, todos os países que sofreram o processo de escravidão baniram o termo de sua língua e explica que definir a cor de uma pessoa é algo simbólico. Usam-se as cores da natureza como referência para dar características a um ser, sendo assim, a palavra preta (o) é mais nobre. Partindo deste princípio, a própria Consciência “Negra” passaria a Consciência “Preta”.

Negro ou preto o fato é: o processo de colonização e escravidão em que africanos e índios foram submetidos deixaram marcas profundas e hoje se manifestam de forma ampla, desde a caça do “capitão do mato” nas periferias, transmitida em larga escala na televisão aberta, em versão digital e remasterizada, até a ausência de uma representatividade do “padrão” estético e pautas de interesse da maioria da população nos meios de comunicação.

Somos todos negros (ou preto) por moda, elegância ou compaixão? Por golpe do destino, genética ou reprodução? Por afinidade, respeito ou reflexão? Pergunte-se! A consciência para ser humana ainda precisa transpassar muitas barreiras. Para isto, surge a necessidade de políticas públicas que se prestem ao papel do enfrentamento a um agitado histórico, silenciado pela opressão e omissão principalmente daqueles que “fingem que não vê, diz que não foi nada e levam mais porrada”¹.

O Dia da Consciência Negra (ou seria Preta?!) é parte de um processo de promoção ou, quem sabe, reparação, dos direitos da maior parte da população brasileira. Avança, ainda que a passos lentos, comparado a mancha deixada por fatos e índices históricos, e, sem dúvidas, os danos seriam muito maiores se não tivessem políticas públicas focadas na quebra de paradigmas e no “empoderamento” de uma autoafirmação.

No entanto, caro leitor, posto o tema em pauta, o simples fato de oferecer uma visão pronta, não compreende a uma real solução do problema, uma vez que não se trata da minha ou da sua opinião e sim do espaço que os Direitos Humanos necessitam para se fazer valer. Contudo, uma coisa é certa: não me venha dizer que está tudo normal! Ainda é preciso que cada um se preste ao papel de pensar, analisar, raciocinar, questionar, denunciar, participar, mobilizar-se e, sobretudo, mudar; o que só acontece quando diante à mobilização das consciências. Este processo começa dentro de você, passando para familiares, amigos e desconhecidos. De fato, não é fácil erradicar um comportamento impregnado na formação cultural e educacional, mas com certeza, munir-se de informação e colocar a mente em estado “alfa” já é um bom começo, passando a compreender o outro como uma extensão de você e colocando-se como protagonistas da mudança.

Com isto, o jornal Primeira Impressão apurou junto a alguns leitores de Caieiras, Franco da Rocha e Francisco Morato sua opinião sobre a Consciência Negra (ou preta).


Confira o resultado:

“Resistência! Em tempos de crise, de governos desgovernados, de jogo político sujo e insolente, é necessário resistir, perseverar, exigir o respeito que nos é devido. Resgatar e conhecer nossa história, nos organizar e não deixar que nenhum direito nos seja tirado ou suprimido. Combater o racismo trata-se de uma tarefa difícil, pois não se explica, sente-se. É uma doença encravada em nossa sociedade.”


Raphael Miranda, 26, advogado e presidente do Conselho da Comunidade Negra de Fco. Morato

“Infelizmente por conta da impunidade e o tratamento corriqueiro, convivemos com o racismo diariamente. Ocupamos o menor número de vagas em universidades, somos prejudicados com educação pública, moramos mais distantes e recebemos os menores salários. Quando nos manifestamos contrários somos submetidos ao clichê de vítimas, coitadinhos, devendo somente desculpar as ofensas. Gosto da oportunidade que temos, por mérito, luta e políticas instituídas, de mostrar que, apesar de todos os percalços não desistimos ou desanimados e principalmente que somos conscientes e permanecemos vibrantes com essa consciência de ser negro, brasileiro, periférico e ainda assim, persistentes no processo de conscientizar ainda mais o nosso povo”.


Jully Gabriel, 33, Comunicadora e Produtora Cultural.



“O Brasil foi o último país a abolir essa vergonhosa herança histórica. Tem a segunda maior população negra do mundo, ainda não possui a política de reparação, o que acredito se tratar de uma ‘reintegração humana’, de total relevância e que ainda gerar tanta polêmica. Aqui você agride por diversão e recebe por costume; além do mais, com o crescimento das redes sociais, surgem em maior número os papagaios, que reproduzem o que ouvem. Parece estupido, mas infelizmente é assim. Mas quem fala, o quê diz, de que forma, para quem e pra quê? Não se cale, reaja!”

Bonga, 40, artista visual e arte educador.



“Eu não descendo de escravo, descendo de um povo que foi escravizado’ e a população precisa entender que existe uma dívida social a ser paga aos povos explorados e escravizados, pois não tiveram o direito de escolha, simplesmente chegaram e impuseram como e o que deveriam fazer; do contrário, era morte. O racismo, assim como toda forma de preconceito, é um câncer que vai comendo e destruindo tudo à sua volta. Age de forma silenciosa e quando dá indícios físicos e aparentes, é porque já está em um estado avançado. Assim acontece com aqueles que não toleram, não respeitam e as pessoas não se dão conta disto. Se me reconheço como negro, logo dizem ‘mas você não é negro, é moreno claro’. Se alguém se reconhece como branco ninguém diz: ‘você não é branco, é claro, gelo ou bege”.

Mauricio Ribeiro de Carvalho, 33, Cabeleireiro.


“O racismo é um sentimento de ódio absorvido por quem não aceita o diferente dele(a). Desejo que chegue a era em que se tenha consciência Negra todos os dias, uma era onde, nós, mulheres negras, possamos andar com nossos cabelos “armados” sem sofrer reprovação de olhares inconformados ou indignados. Que nossos irmãos e nossas irmãs tenham orgulho e prazer de falar: ‘SIM, SOU NEGRA E NÃO MORENA’”.


Chai Odisseiana, 28, Mc e Compositora do Grupo Odisseia das Flores e Arte educadora.



“Peço aos orixás, de Exu a Oxalá, que abençoem e iluminem a todos. Que a faca do racismo e do preconceito não possa mais a nos ferir. Que no coração e na mente de todos os brasileiros viva as memórias de Zumbi, de Dandara, Luiz gama, Luiza Mahim e todos os malês. Que o sangue que jorrou do ventre da mãe África não seja esquecido e que o sofrimento de nossos antepassados seja inspiração para nossa luta nos dias de hoje. Que o 20 de novembro não seja só mais uma data comemorativa e sim um dia de reflexão. Que todos possam entender que Zumbi não morreu em vão e se hoje somos livres, devemos a ele e outros mais.”


Diego Xavier, vulgo Dark, 27, orientador sócio educativo.




“Novembro, mês da consciência negra, novembro sem preconceito”.


Addilson S. Almeida, 56, Coordenador de Assuntos Políticos do Conselho da Comunidade Negra de Caieiras.

PUBLICADO EM JORNAL PRIMEIRA IMPRESSÃO | 2014


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Tamires Santana

Tamires Santana é um ser vivo, dotado de inteligência e conhecimento (até que se prove o contrário). É pai, mãe e espírito - nem um pouco santo. Estuda, trabalha, busca, anda — principalmente de trem e bicicleta. Chegou a conclusão de que quanto mais se busca, menos se sabe. Gosta de falar sobre arte, cultura, cultura popular, política, economia solidária, design, religião, índio, folclore brasileiro, samba, carnaval, literatura infantil, ciência, criança,
desenho animado, cinema, plantas, minhocas, compostagem e um montão de outras coisa. É adepta da
filosofia de vida "é pra frente que se anda".

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